Jornada Dupla: um esgrimista das ciências exatas

Praticante de esgrima há cerca de 17 anos, Nicolas Ferreira se dedica além disso, a graduação em engenharia de produção

Nicolas Massao Ferreira Silva, 27 anos, já poderia ser intitulado como “diferente”, por praticar uma modalidade esportiva pouco conhecida no Brasil, a esgrima. Mas além disso, ele ainda acrescenta na sua lista de “coisas não tão populares”, o gosto pelas ciências exatas, sendo também um estudante de engenharia de produção. Com duas funções que exigem bastante dedicação, ele tem sido um exemplo de que é possível sim conciliar a jornada dupla, desde que tenha muita disciplina e acima de tudo, que goste do que faz. E fechado as curiosidades que o cercam, o atleta é praticante de budismo, filosofia que o ajuda a manter o equilíbrio de todas estas partes que compõem a sua vida.

O esporte sempre esteve presente na vida de Nicolas e seus irmão, já que a mãe era professora de educação física. Mas inicialmente o esporte que ele praticava era outro, pois como a mãe dava aulas de natação, acabava levando-o também. Ele brinca que foi parar na esgrima meio que por “acidente”.

“Até os 10 anos minha mãe me levava nas aulas de natação e em certo dia disse que não queria mais e foi por esse motivo que fomos ao Ginásio do Ibirapuera. Lá existem diversos esporte gratuitos para a comunidade e dentro deles a esgrima. Candidatei-me à vaga e depois de algumas semanas saiu o resultado de que havia sido sorteado”.

O atleta teve seu primeiro contato com a esgrima no Ibirapuera, onde ficou por quase três anos e aos 13 acabou ingressando na equipe do Pinheiros. E mesmo sendo novo, ele conta que desde o início ele já encarava os treinos com muita seriedade e que percebendo isso, seus pais abraçaram o desafio junto com ele, colocando o mesmo peso e paixão em tudo relacionado à modalidade, o que foi fundamental para que se tornasse um atleta de alto rendimento.

“O apoio deles foi simplesmente essencial, quando a paixão é compartilhada pela família os momentos difíceis são mais serenos e os momentos de vitória são de todos. A família é o principal fator para se manter o esporte mesmo em meio a tantas dificuldades e adversidades que o esporte tem. ”

A faculdade veio anos mais tarde. E se para uma atleta já é difícil conciliar a rotina de treinos e competições, com os estudos, quando o curso é uma engenharia, considerado um dos ramos que exigem bastante, o desafio pode ser ainda maior. Se de um lado o esporte prevê que você tenha um descanso físico e mental, para recuperar-se entre um treino e outro, a faculdade exige que tenha horas para estudar, fazer estágio, entre outras atividades.

“O período mais difícil foi, sem dúvida, no ano de 2018. Para conseguir me formar tenho que cumprir as horas mínimas de estágio obrigatório dentro da área de Engenharia de Produção. Então, estagiava das 8 às 16h, treinava das 16h30 às 19h e ia para a faculdade das 19h30 às 23h. Foi um período de muita luta e pouco sono. Isso sem contar com os dias sem dormir nas semanas de prova. Meu corpo já se acostumou com isso, acredito que vou sentir falta depois que me formar”, brinca o esgrimista.

Jogos Pan-Americanos

Nicolas Massao foi um dos representantes do Pinheiros que estiveram nos Jogos Pan-Americanos de 2015, em Toronto e este ano está indo para sua segunda participação em Pan, nos Jogos de Lima. Tendo também ido ao Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro (2016), ele conta que os dois eventos foram bem marcantes e que baseado na sua experiência anterior pretende chegar ainda mais forte nesta edição.

“Foi uma competição incrível, depois do Jogos Olímpicos essa é a etapa mais emocionante que joguei. Nessa ocasião perdi para um atleta americano por 15 a 13 e esse gosto amargo ainda não saiu da minha boca, pretendo tirá-lo agora em Lima”.

O pinheirense, que já está acostumado com as ciências exatas, que trabalha sempre com a precisão, onde muitas vezes um pequeno erro pode comprometer todo o resultado, enxerga a competição que terá pela frente com estes mesmo olhos.

“O Pan é uma competição muito curta e não tem margem para erros, sinto-me mais experiente que há quatro anos e isso sem dúvida será um diferencial. Estou muito confiante na possibilidade de trazer uma medalha para o Brasil. Estar na equipe, no maior evento que antecede as Olimpíadas é algo grandioso, essa é sem dúvida a competição mais importante do ano”.

O atleta comenta que um dos segredos para administrar a dupla rotina, é manter o máximo de concentração no local em que está. Durante o treino manter-se 100% focado na esgrima e na faculdade 100% focado nas aulas, não deixando que os problemas de um afetem o outro. Disputar o Pan será também um passo importante já pensando em Tóquio-2020, já que Nicolas atualmente é o segundo no      ranking nacional e pretende disputar mais duas provas este ano para subir para primeiro e garantir a vaga para o pré-olímpico no ano que vem.

Além da convocação do Pan, no entanto, 2019 terá um gostinho especial e motivo duplo para comemorar. “Não é nada fácil conciliar, mas este ano me formo com muita alegria no coração”, finaliza.